ABCF alerta que ivermectina não previne COVID-19

Medicamento não foi pesquisado em seres humanos para COVID-19 e pode provocar efeitos colaterais severos se administrado com cloroquina e hidroxicloroquina

A Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas (ABCF), que reúne pesquisadores de inúmeras universidades brasileiras, alerta para o risco da adoção da ivermectina como medicamento preventivo para a COVID-19. O fármaco não tem estudos para tratamento dos sintomas causados pelo novo coronavírus e se coadministrado com cloroquina ou hidroxicloroquina expõe o paciente a riscos de efeitos colaterais graves.

Conselho Consultivo da entidade decidiu se manifestar diante da divulgação de que a ivermectina preveniria contra sintomas da COVID-19.

O SARS-CoV2 é um vírus do tipo RNA-vírus, causador da COVID-19, a pandemia que vem assolando o mundo desde o final de 2019. Esse vírus pertence à família Coronavírus (Coronaviridae), que tem mais de 50 vírus diferentes. Dentre esses, dois tipos causaram síndromes respiratórias graves em 2012: o MERS-CoV (Middle East Respiratory Syndrome – coronavirus) e o SARS-Cov (Severe Agude Respiratory Syndrome – coronavirus), com uma taxa de letalidade elevada.

Considerando que a descoberta de um novo medicamento para tratamento da COVID-19 pode levar muitos anos, grupos de pesquisa realizaram testes in vitro; ou seja, em células infectadas pelo vírus, empregando fármacos conhecidos, que já estavam no mercado. Entretanto, a capacidade de transmissão desses vírus não era muito elevada, se comparada com o SARS-CoV2 que causa a COVID-19, e a maioria das pesquisas iniciadas naquela época foi descontinuada com a diminuição dos casos das infecções por MERS-CoV e SARS-Cov.

Com o advento da COVID-19, pelo fato de o agente causador (SARS-CoV2) ser da mesma família do MERS e SARS-Cov, muitos grupos de pesquisa retomaram a investigação com os medicamentos estudados anteriormente. Dentre eles, está a ivermectina, cujos resultados foram obtidos para o SARS-CoV e o MERS-CoV a partir de estudos in vitro. Porém, em um protocolo terapêutico, a dose, frequência de administração e duração do tratamento só pode ser estabelecido a partir de estudos clínicos, em seres humanos (com pacientes e indivíduos saudáveis), seguindo a metodologia científica. 

A ivermectina é indicada para tratar algumas parasitoses e também piolho em humanos. Há diversos estudos clínicos em andamento no mundo com a ivermectina, porém, poucos foram finalizados e ainda não há resultados publicados ou evidências clínicas que suportem um protocolo terapêutico para tratar ou prevenir a COVID-19 utilizando a ivermectina.

Em doses baixas, os efeitos adversos mais comuns – dor muscular ou nas articulações, tonturas, febre, dor de cabeça, febre, agravamento de casos de asma, e elevação da frequência cardíaca – são pouco frequentes. Pessoas com disfunções cerebrais devem ter seu uso controlado uma vez que este fármaco pode agravar o quadro neurológico. Entretanto, em doses altas, esses efeitos “tóxicos” podem ser mais intensos e frequentes.

“É importantíssimo ressaltar que esses efeitos são semelhantes a alguns sintomas relatados para a COVID-19, e o indivíduo pode interpretar erroneamente como sendo efeito do medicamento e não procurar o sistema de saúde”, alerta Flavio da Silva Emery, professor associado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto-USP e presidente da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas. Segundo ele, “o uso profilático traz um agravante, que é o fato de o indivíduo achar que está protegido e relaxar os cuidados, vindo a se expor”.

Um dos protocolos que vem sendo veiculado é a associação com cloroquina/hidroxicloroquina. Quando esse medicamento é coadministrado com cloroquina (principalmente) ou hidroxicloroquina, os efeitos adversos se intensificam e podem causar rabdomiólise (síndrome que causa destruição de fibras musculares esqueléticas e pode provocar insuficiência renal) e intensa mialgia (dor muscular). Isso por causa da interação medicamentosa entre a cloroquina e a ivermectina.

“Os medicamentos não devem ser utilizados sem comprovação científica e, no momento, a prevenção mais eficaz ainda é o uso de máscaras, cuidado com a higiene e ficar em casa o maior tempo possível”, alerta Flavio Emery, doutor em Química de Produtos Naturais e membro do Sub-comitê Drug Discovery and Development da IUPAC (União Internacional de Química Pura e Aplicada.

ABCF
Foi criada em 2003 durante o IV CIFARP – Congresso Internacional de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto-SP, na área de Farmácia, é a entidade científica que faz indicação de membros de representantes para os respectivos comitês nas agências de fomento nacional – CNPq e CAPES.

Integram o Conselho, pesquisadores de várias universidades brasileiras: Denise Brentan da Silva (UFMS), Fávero Reisdorfer Paula (UNIPAMPA), Raquel Brandt Giordani (UFRN), Tania Mari Bellé Bresolin (UNIVALI), Maira Galdino da Rocha Pitta (UFPE), Wanda Pereira Almeida (UNICAMP).

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